Comer “de mão” e o caso do “capitão”

Corpos, identidades e resistências

Autores

DOI:

https://doi.org/10.17398/320-365.3.187

Palavras-chave:

comer com as mãos, corpo, identidade, resistência, patrimônio alimentar familiar

Resumo

Este artigo investiga a prática de comer com as mãos no Brasil, com foco na prática do 'capitão', bolinho de feijão e farinha de mandioca consumido sobretudo na região Nordeste e no estado de Minas Gerais. Com base em um formulário digital respondido por 250 pessoas e análise de bibliografia especializada, argumenta-se que o ato de comer com as mãos constitui uma prática de resistência que pode ser vista a partir do patrimônio alimentar familiar afro-brasileiro, transmitido predominantemente por mulheres, especialmente mães e avós. Os resultados apontam para a relação entre corpo, identidade, classe, raça e território, evidenciando como tal prática pode reafirmar heranças africanas no contexto da diáspora negra no Brasil, refletindo igualmente a complexidade do processo de mestiçagem. A pesquisa revela, ainda, um declínio progressivo dessa prática na atualidade, embora sua marca identitária e afetiva persista.

Downloads

Os dados de download ainda não estão disponíveis.

Referências

Estudos e livros

Almeida, M. R. C. (2012). Os índios na História do Brasil no século XIX: da invisibilidade ao protagonismo. Revista História Hoje, 1 (2), São Paulo: Associação Nacional de História, 21-39.

Alves, L. C. (2019). Onje: saberes e práticas da cozinha de santo. Tese de Doutorado, Instituto de Nutrição, Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Carneiro, E. (1978). Candomblés da Bahia (6ª ed.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Carney, J. A. (2002). Black Rice. The African Origins of Rice Cultivation in the Americas. Cambridge: Harvard University Press.

Castro, J. (1984). Geografia da fome - o dilema brasileiro: pão ou aço (10ª ed.). Rio de Janeiro: Edições Antares.

Costa, R. R. S. C. (2021). A feijoada da Comunidade Remanescente de Quilombo Machadinha/RJ: para pensar o mito da democracia racial. Tempero de quilombo na escola: experiências de extensão do projeto CulinAfro (UFRJ-Macaé), Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde, Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 33-50.

Elias, N. (1990) [1939]. O Processo Civilizador: vol. 1 – Uma História dos Costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Ferretti, S. (2011). Comida ritual em festas de Tambor de Mina no Maranhão. Horizonte - Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, 8 (21), Belo Horizonte: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 242-267.

Filgueiras, R. F. D. (2018). Cabra Marcado para Comer: a assimilação do Nordeste na Favela de Ramos, uma receita de subjetivações, memórias e resistência. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Fischler, C. (1988). Food, self and identity. Social Sciences Information, 27 (2), Londres: Sage Publications, 275-292.

Hegde, S., Nair, L., e Haritha Irshad, H. (2018). Traditional Indian way of eating an overview. Journal of Ethnic Foods, 5 (1), Coimbatore: Amrita Vishwa Vidyapeetham, 20-23.

Lody, R. (1992). Tem dendê, tem axé: etnografia do dendezeiro. Série Raízes, Rio de Janeiro: Pallas.

Lupton, D. (1996). Food, The Body and the Self. Londres: Sage Publications.

Mann, A., Mol, A., Satalkar, P., Savirani, A., Selim, N., Sur, M., e Yates-Duerr, E. (2011). Mixing methods, tasting fingers: Notes on an ethnographic experiment. HAU: Journal of Ethnographic Theory, 1 (1), Chicago: University of Chicago Press, 221–243.

Medeiros, R. G. (2019). Mundo quase árido. Ilha Revista de Antropologia, 21 (1), Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 21–37.

Meneses, M. P. (2009). Corpos de violência, linguagens de resistência: as complexas teias de conhecimentos no Moçambique contemporâneo. In Santos, B. S. e M. P. Meneses (Orgs.), Epistemologias do Sul (pp. 177-214). Coimbra: Almedina.

Mol, A. (2021). Eating in Theory. Durham: Duke University Press.

Nascimento, B. (2021). Uma história feita por mãos negras: Relações raciais, quilombos e movimentos. Ratts, A. (Org.). Rio de Janeiro: Zahar.

Oyěwùmí, O. (2021). A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero (W. F. Nascimento, Trad.). Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.

Permanasari, M. (2015). Hands and Chopsticks, How to Eat, a Comparative Study of Javanese and Japanese Eating Culture and Utensil Designs. Journal of the International Center for Cultural Resource Studies, 1, Kanazawa: Kanazawa University, 21-51.

Pilla, M. C. B. A. (2003). Manuais de Civilidade, Modelos de Civilização. História em Revista, 9, Núcleo de Documentação Histórica, Instituto de Ciências Humanas, Pelotas: Universidade Federal de Pelotas, 1-21.

Pilla, M. C. B. A. (2005), Manuais de civilidade: veículos de poder e urbanidade. ANPUH, XXIII Simpósio Nacional de História, Londrina, 1-8.

Quijano, A. (2005). Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In -Quijano, A. (Dir.), A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais, perspectivas latino-americanas (pp. 117-142). Buenos Aires: CLACSO.

Ray, T. (2016). A Rule of Thumb for Eating with Your Hands. Gastronomica: The Journal of Food Studies, 16 (2), Berkeley: University of California Press, 92–94.

Ribeiro Farinha, J. (1997). Os eternos odores da memória. Cadernos de Cultura Medicina na Beira Interior – da pré-história ao século XX, 11, Castelo Branco: Câmara Municipal de Castelo Branco, 82-85.

Rodrigues Junior, G. J. (2021). Quando ‘outros’ corpos e ‘outras’ epistemologias adentram espaços da modernidade, Apontamentos a partir de uma pesquisa entre Brasil e Senegal. Novos Debates, 7 (1), Brasília: Universidade de Brasília, 2-18

Rufino, L. (2016). Performances Afro-diaspóricas e Descolonialidade: o saber corporal a partir de Exu e suas encruzilhadas. Revista Antropolítica, 40, Niterói: Universidade Federal Fluminense, 54-80.

Santos, L. A. S. (2008). O corpo, o comer e a comida: um estudo sobre as práticas corporais alimentares cotidianas a partir da cidade de Salvador. Salvador: EDUFBA.

Sarges, M. F. (2017). Cultura e Segurança Alimentar dos Povos de Terreiro: Um estudo com a comunidade Ilê Asé Ojú Ogun Funmilaiyó, Trabalho de Conclusão de Curso, Foz do Iguaçu: Universidade Federal da Integração Latino-Americana.

Schwarcz, L. M. e Starling, H. M. (2015). Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras.

Simas, L. A. (2022). Santos de casa: fé, crenças e festas de cada dia. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo.

Simmel, G. (2004) [1910]. Sociologia da refeição (E. Malagodi, Trad.). Estudos Históricos, 33, Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 159-166.

Sousa Junior, V. C. (2011). Na palma da minha mão: temas afro-brasileiros e questões contemporâneas. Salvador: EDUFBA.

Souza, M. D. (2017). Feijoada quilombola: chancela de etnicidade. Contextos da Alimentação - Revista de Comportamento, Cultura e Sociedade, 5 (2), São Paulo: Centro Universitário Senac, 29-48.

Spence, C. (2022). Interacting with food: Tasting with the hands. International Journal of Gastronomy and Food Science, 30, Londres: Elsevier, 1-10.

Vaquinhas, I. M (2018). A lei da mesa. As praxes da etiqueta e as boas maneiras na sociedade de bom tom: algumas fontes para o seu estudo (século XIX-princípios do século XX). BiblioAlimentaria. Alimentação, saúde e sociabilidade à mesa no acervo bibliográfico da Universidade de Coimbra, Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 154-157.

Yin, R. K. (2001). Estudo de caso: planejamento e métodos. Trad. Daniel Grassi, 2ª ed., Porto Alegre: Bookman.

Fontes e documentos oficiais

Brasil (2010). “Lei 12.288/10”. Estatuto da Igualdade Racial, Brasília, DF: Presidência da República.

IBGE (2022). Panorama do Censo 2022. Disponível em https://censo2022.ibge.gov.br/pano¬rama/. Acesso em 31 de maio de 2024.

Sites e reportagens

Ângelo, I. (2010). Mão na massa. Veja São Paulo. Disponível em https://vejasp.abril.com.br/ cidades/mao-na-massa, acesso em 4 de março de 2024.

Aríbisálà, Y. (2019). The Forgotten Dance Between Fingers and Nigerian culture. The Cen¬tenary Project. Disponível em https://artsandculture.google.com/story/PgXxDCwmPAzhcA, acesso em 21 de março de 2024.

Dias, B. C. (2022). Pele e pintura: mistério e presença no trabalho de Larissa de Souza. Prêmio Pipa. Disponível em https://www.premiopipa.com/wp-content/uploads/2023/04/LARISSA-DE-SOUZA-1-Larissa-de-Souza.doc.pdf, acesso em 4 de abril de 2024.

Lody, R. (2022). Além do garfo. Algo Mais. Disponível em https://algomais.com/alem-do-garfo-por-raul-lody/, acesso em 13 de março de 2024.

Spivey, D. (2018). TransAtlantic Food Migration: The African Culinary Influence on the Cuisine of the Americas. Black Past. Disponível em https://www.blackpast.org/global-african-history/trans-atlantic-food-migration-the-african-culinary-influence-on-the-cuisine-of-the-americas/, acesso em 18 de março de 2024.

HABIB

Publicado

2025-12-23

Como Citar

Comer “de mão” e o caso do “capitão”: Corpos, identidades e resistências. (2025). Archives on Food, Culture and Nutrition (AFOCUN-ICAF), 3(2), 187-210. https://doi.org/10.17398/320-365.3.187