Comer “de mão” e o caso do “capitão”
Corpos, identidades e resistências
DOI:
https://doi.org/10.17398/320-365.3.187Palavras-chave:
comer com as mãos, corpo, identidade, resistência, patrimônio alimentar familiarResumo
Este artigo investiga a prática de comer com as mãos no Brasil, com foco na prática do 'capitão', bolinho de feijão e farinha de mandioca consumido sobretudo na região Nordeste e no estado de Minas Gerais. Com base em um formulário digital respondido por 250 pessoas e análise de bibliografia especializada, argumenta-se que o ato de comer com as mãos constitui uma prática de resistência que pode ser vista a partir do patrimônio alimentar familiar afro-brasileiro, transmitido predominantemente por mulheres, especialmente mães e avós. Os resultados apontam para a relação entre corpo, identidade, classe, raça e território, evidenciando como tal prática pode reafirmar heranças africanas no contexto da diáspora negra no Brasil, refletindo igualmente a complexidade do processo de mestiçagem. A pesquisa revela, ainda, um declínio progressivo dessa prática na atualidade, embora sua marca identitária e afetiva persista.
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